O Banco Central do Paraguai divulgou no início de setembro de 2026 o índice de preços ao consumidor de agosto: variação mensal de 0,0%, inflação interanual de 1,5% e 1,8% acumulados no ano. Em agosto de 2025, a taxa interanual estava em 4,6%, e o acumulado do ano, em 3,4%. O resultado fica bem abaixo da meta oficial de 3,5%.
O número da manchete, porém, não é o número que a família vê no caixa do supermercado. O próprio índice de alimentos do BCP saiu de 133,8 pontos em agosto de 2023 para 157 pontos em agosto de 2026, uma alta acumulada de 23% em três anos.
Como agosto chegou a zero
O mês fechou nesse patamar porque forças opostas se anularam. De um lado caíram carnes e verduras, com o Banco Central registrando maior disponibilidade para o mercado interno e recuo na maioria dos cortes bovinos. Bens duráveis importados também baixaram, efeito do guarani mais forte frente ao dólar.
Do outro lado subiram os combustíveis. Diesel comum e aditivado, gasolina comum e premium acompanharam a alta internacional do petróleo e o custo de reposição. Serviços seguiram a mesma direção, com 2,6% acumulados no ano e 3,5% na medida interanual, puxados por refeições fora de casa, hospedagem e pacotes turísticos.
Dois detalhes do relatório ajudam a ler o mês. Apenas 32,7% dos itens da cesta subiram de preço em agosto, contra uma média histórica de 44,8%. E a inflação núcleo, que exclui os componentes mais voláteis, também ficou em 0% no mês e em 1,3% no interanual.
Os alimentos contam outra história
O recorte de três anos muda o quadro. Desde agosto de 2023, o índice de alimentos avançou 23%. Na comparação com agosto de 2020, a alta acumulada chega a 56%.
A carne bovina é o item que mais pesa nessa conta: cerca de 37% desde agosto de 2023 e 72,3% desde agosto de 2020. Verduras frescas subiram 28% em três anos, e frutas frescas, 23,5%.
Cabe um contraponto, para que o número de três anos não seja lido como a tendência de agora. Em agosto, o conjunto formado por carne bovina, aves, suíno e miúdos caiu de preço e acumula variação interanual de apenas 0,1%, contra 10% em agosto de 2025. A escalada foi construída sobretudo em 2023 e 2024, e o último ano foi de estabilidade nessa prateleira.
O economista Víctor Raúl Benítez observa que a preocupação das famílias não está apenas no comportamento dos preços, e sim na relação entre eles e a renda. Quando o custo do básico corre mais rápido que a capacidade de ganho, a pressão sobre o orçamento aumenta e o endividamento doméstico tende a crescer.
Por que a carne subiu tanto

A explicação está no mercado externo. Em agosto, o preço médio de exportação da carne paraguaia chegou a US$ 7.410 por tonelada, o maior valor registrado em 2026. Até julho, a média era de US$ 6.915 por tonelada, contra US$ 5.727 no mesmo trecho de 2025.
Marco Panciotto, presidente da associação de produtores e exportadores de carne, a APPEC, descreve uma demanda internacional sólida pelo produto paraguaio. O ritmo de abate acompanhou esses preços e o estoque bovino encolheu. Os produtores entraram em fase de recomposição do rebanho, retendo matrizes, o que aperta ainda mais a oferta que sobra para o mercado interno.
Gustavo Lezcano, presidente da Capasu, a câmara de supermercados, deu a dimensão do efeito na prateleira em declaração de 15 de agosto. Segundo ele, a carne subiu entre 25% e quase 30% em três anos, responde por cerca de 20% das vendas do setor e por quase metade do consumo das famílias paraguaias. No mesmo período, os importados subiram menos de 5%, justamente por causa do dólar mais barato.
O aviso para o resto de 2026
A trégua nos preços pode não durar o ano inteiro. Um relatório do JP Morgan sobre o Paraguai, datado de 2 de setembro de 2026, projeta que a inflação volte a acelerar a partir de setembro, por efeitos estatísticos de base de comparação, por preços mais altos de bens transacionáveis e por uma eventual pressão de alimentos associada ao El Niño.
A estimativa do banco para o fechamento de 2026 é de 3,3% na medida interanual, ainda ligeiramente abaixo da meta de 3,5% do Banco Central. O mesmo 3,3% aparece nas expectativas de mercado que o BCP coleta junto a agentes econômicos.
O que o preço da comida muda no orçamento de quem chega
Vale separar dois números que a conversa costuma embaralhar. A inflação de 1,5% ao ano descreve a cesta inteira, com aluguel, transporte, serviços e eletrônicos dentro dela. O que subiu forte foi uma fatia específica, e é justamente a fatia que se compra toda semana.
Para quem vem de fora existe um segundo efeito, que o índice medido em guaranis não mostra. O guarani se valorizou 19,4% frente ao dólar na comparação com agosto de 2025, segundo o cálculo do DNIT. Ou seja, a mesma nota de dólar compra menos guaranis do que comprava há um ano, e um preço estável em moeda local fica mais caro quando convertido para dólar ou real.
Nada disso derruba a conta do custo de vida no Paraguai, que segue bem abaixo de São Paulo ou Lisboa. Muda a margem com que ela deve ser feita. As faixas de referência de $1.200 a $1.600 por mês em Assunção continuam de pé, e o item a revisar dentro delas é o supermercado, não o aluguel.
Na prática, o orçamento de quem chega hoje carrega um componente caro e um barato ao mesmo tempo. Proteína animal está no topo da lista de altas dos últimos três anos, enquanto eletrônicos, eletrodomésticos e outros importados ficaram relativamente baratos com o câmbio atual. Vale montar a planilha com esses dois pesos separados, usando os valores do guia de custo de vida no Paraguai e a lógica de conversão do guia de real, dólar e guarani.
Do lado tributário, nada aqui se move. O princípio territorial da Ley 6380/2019 mantém a renda de fonte estrangeira fora da base de quem tem residência fiscal efetiva, assunto destrinchado no guia sobre imposto no Paraguai. Preço de comida e alíquota são contas separadas, e o câmbio forte já aparecia nos dados de inflação e dólar de julho.
Perguntas frequentes sobre os preços no Paraguai
A inflação no Paraguai está baixa em 2026?
Está. Agosto fechou com variação mensal de 0%, interanual de 1,5% e 1,8% acumulados no ano, contra 3,4% no mesmo trecho de 2025. O resultado ficou abaixo da meta de 3,5% do Banco Central, e a projeção para o fim do ano é de 3,3%.
Por que a comida sobe mais do que a inflação geral no Paraguai?
O item de maior peso na cesta de alimentos é a carne bovina, e o preço dela é puxado pela exportação. Preço internacional em alta, rebanho em recomposição e demanda externa firme deixam menos oferta para o mercado interno, o que sustenta o preço na prateleira.
Morar no Paraguai ficou mais caro em 2026?
Em guaranis, a cesta geral quase não se moveu no ano, e os importados ficaram mais baratos. Para quem recebe em dólar ou em real, o guarani mais forte encarece tudo medido em moeda estrangeira, e o supermercado é onde isso aparece primeiro.
Fontes
- Última Hora, 4 de setembro de 2026: IPC de agosto do BCP, variação mensal, interanual e acumulada, itens que subiram e caíram, comportamento dos serviços.
- Economia.com.py, 2 de setembro de 2026: taxa interanual de 4,6% em agosto de 2025 e variação interanual de 0,1% no conjunto de carne bovina, aves, suíno e miúdos, contra 10% um ano antes.
- Prensa Mercosur, 4 de setembro de 2026: índice de alimentos de 133,8 para 157 pontos, altas acumuladas da carne, das verduras e das frutas, proporção de itens em alta e comentário de Víctor Raúl Benítez.
- ABC Color, 15 de agosto de 2026: declarações de Gustavo Lezcano, da Capasu, sobre a alta da carne, o peso no faturamento dos supermercados e o comportamento dos importados.
- Prensa Mercosur, 3 de setembro de 2026 e 4 de agosto de 2026: preço médio de exportação da carne bovina e declarações de Marco Panciotto, da APPEC.
- Última Hora, 2 de setembro de 2026: relatório do JP Morgan sobre o Paraguai e a projeção de inflação para o fim de 2026.
- ABC Color, 1º de setembro de 2026: valorização de 19,4% do guarani frente ao dólar em agosto, no cálculo do DNIT.
Aviso: Esta notícia é informação geral e não constitui aconselhamento financeiro, fiscal ou de investimento. Preços, câmbio e índices mudam mês a mês. Confirme os dados atuais antes de montar o seu orçamento e consulte um profissional para o seu caso.
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Fontes oficiais: os índices citados vêm do Banco Central do Paraguai e da imprensa econômica paraguaia. Como os dados são revisados mensalmente, confirme a série atual em: Banco Central do Paraguai e Instituto Nacional de Estadística. Situação: setembro de 2026.

Sobre o autor
Yannick Schroth
Fundador · Consultor de residência no Paraguai
Vive em Assunção e acompanha brasileiros e portugueses no caminho até a residência, a cédula e uma estrutura fiscal eficiente no Paraguai.
Com apoio local de
Camila RodriguesEspecialista em emigração e relocação · Assunção
Vive em Assunção e acompanha os clientes no dia a dia do processo: documentos, cédula e os passos locais para se estabelecer no Paraguai.






